Canto de Encanto

Um lugarzinho pra se aconchegar...

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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2007

15.05.07

Verdades inventadas necessárias

Por volta das dezesseis horas de hoje desembarcou em São Paulo o Papa Bento XVI. Esta é a principal notícia que vejo hoje, 9 de maio de dois mil e sete, nos principais meios de comunicação do país.
Violência? Corrupção? Fome e miséria? Ah, sim, há algumas notas sobre isso também, claro. Afinal, o país em que o Papa desembarcou foi o Brasil.
Mas o que me chama a atenção hoje diante da visão que tenho pela TV de milhares de seguranças e militares mobilizados e saídos não sei de onde não é o fato de estarem lá sem nunca terem estado em lugar algum (pelo menos eu não vi, alguém ai viu?). Bento XVI, ou Joseph Hatzinger, não é apenas o superior representante de uma das mais antigas e maiores formas de religião existentes no mundo.É, também, um chefe de estado e, nessa condição, não se pode estranhar a presença de um forte esquema de segurança e da mobilização dos anfitriões da casa em sua chegada.
O que me chama a atenção hoje é a presença de um outro exército, uma outra milícia. Uma multidão saída dos vários cantos do país que se amontoa em torno do mosteiro de São Bento para receber um aceno, uma palavra, um “em nome do Pai, do Filho, e do espírito Santo”, vindos daquele homem. Aquela figura de branco que aparece em uma sacada e é reverenciada por gritos, choro e aplausos daqueles que enfrentam 10 graus apenas para vê-lo.
O que os faz estar ali? O que os leva a crer que aquele homem seja diferente dos demais e mereça tanta reverência, tanta dedicação? Quem o elegeu? Quem declarou a ele tanta supremacia em falar de amor, paz e conforto à humanidade?

O que leva uma pessoa a acreditar em algo que jamais precisou de comprovação?O que faz com que a humanidade se vulnerabilize tanto diante de tais crenças?
Somos seres racionais, já sabemos disso há milhares de anos pelo fato exatamente de o sermos. Nosso cérebro funciona de forma a fazer com que novos conceitos tenham ligações com aquilo que já apreendemos. Precisa disso para manter-se vivo, para construir e reconstruir as milhares de ligações axônicas de que é constituído.
Então por que motivo ainda estamos sujeitos a aceitar uma credibilidade dada a pessoas e fatos sem que sequer cogitemos uma explicação? Sem sequer exigirmos uma aproximação com a lógica do que vemos e podemos comprovar?
Pensando nisso lembrei-me de quando era criança e ganhei em uma edição de férias da Turma do Donald, meu gibi preferido, uma moedinha do Tio Patinhas que, segundo vinha escrito lá, era a “moeda da sorte”dele, vinda direto de se “caixa-forte”. Hoje isso me parece absolutamente ridículo e incalculavelmente absurdo,mas passei uma boa parte de minha infância completamente agarrada àquilo que se tornara uma espécie de amuleto, de companhia imaginária para seguir em frente. E lembrei-me também de quando a perdi, em uma poça de lama da qual minha mãe me impediu imbativelmente de resgatá-la. Fiquei dias absorta em uma melancolia, uma incerteza diante da vida creditada a perda de minha moedinha.
E foi exatamente a lembrança da existência de minha tão amada moedinha da sorte que me trouxe, talvez, uma explicação para o algo que presencio hoje e que me inquieta tanto.
Eu precisava tanto de minha moedinha quanto aquelas pessoas precisam daquela figura de branco que aparece na sacada. Sim, digo figura de branco, pois, assim como minha devoção não foi creditada ao pedaço de metal que estava em minhas mãos, a deles não está no homem que é substituído a cada período de tantos anos quanto dure a vida do seu antecessor.
A devoção está no que o objeto da fé representa para a vida. Ou pelo menos no quanto este objeto consegue suprir uma necessidade humana de confortar-se em algo, de encontrar um refúgio de certeza, isento de toda e qualquer necessidade de comprovação.
O ser humano demonstra uma necessidade pouco auto analisada de crer em algo que lhe garanta e justifique a sobrevivência.Algo que lhe indique que existe um caminho a seguir, uma forma de viver. E é nesse momento que surgem, dentre muitas coisas, as religiões.
Religiões são, para mim, apenas aglomerações sociais em que pessoas que se confortam e se suprem do mesmo objeto de fé se unem e praticam seus rituais, criados por e para elas mesmas. Religiões são uma das formas de garantia da necessidade de viver. A parte ruim é quando se tornam, além disso, perfeitas formas de manipulação e comprometimento de opiniões. Mas isso é uma outra questão sobre a qual não dissertarei agora.
Não me coloco aqui , de nenhuma forma, em uma atitude anticlerical. Sinto-me muito a vontade para expressar minha opinião diante do que vejo e sinto, mas nem um pouco em declarar o que seja certo e errado, melhor ou pior para quem quer que seja. Nem penso que alguém esteja em condições disso.
Precisar de uma fé nos baste, de uma forma de vida que nos conforte justifica nossa condição humana e é perfeitamente compreensível. O que não se pode admitir é que isso não possa jamais ser superado mediante a reflexão.
Quanto a mim, creio em muitas coisas sim, mas não mais em minha moedinha. Descobri com a vida até agora que a maior verdade que tenho está aqui, dentro de mim e naquilo que posso fazer tanto por mim quanto para o meio em que estiver.
Minha verdade sou eu e o quanto eu acredito que ela exista. E nisso sim sou uma fiel bem praticante...
  • criado por  madlau criado por madlau
  • Postado em 21:45:30

08.05.07

Procura

Onde está você?/ Minh'alma chama/O corpo que ama/ A dor de não o ter/ Onde está você?/ Meu corpo é chama / alma que clama/ O desejo que não vê/ Te acho enfim.../ Mas não é você/ É você em mim.../ Te tenho então/ Guardado aqui dentro/ Companheiro de minha solidão

 Laudicéia Tatagiba

  • criado por  madlau criado por madlau
  • Postado em 12:16:03