02.09.07
Negligências
Negligencia ao mundo quem somente encontra a razão para ele em si próprio, quem decide gostar somente do amarelo e pune todos os que gostam de vermelho, quem o reduz a um círculo onde tudo é inexplicável e imperfeito, onde cada dia se torna apenas uma sobrevivência vã e despida de sentido.
Negligencia a beleza quem nunca percebeu o som solitário, embora forte e perfeito, dos violinos em meio a uma interpretação sinfônica de Tchaykovsky e quem jamais ousou adentrar a genialidade e singeleza de um “Van Gogh”; quem em meio ao nada não conseguiu enxergar a única flor que surgiu, vitoriosa.
Negligencia ao outro quem não percebe suas necessidades, seja de pão, de água ou apenas de alguém por perto e quem, ao percebê-las, nada fez.
Negligencia a morte quem esquece da efemeridade da vida.
Negligencia a vida quem esquece de que ela acontece a cada dia, e que cada minuto é um presente, uma nova oportunidade de aprender e recomeçar.
Negligencia o bem quem ainda não o encontrou dentro de si e quem, ao encontrá-lo, jamais permitiu-se revestir dele e mostrar aos outros o quanto é útil para viver nesse mundo.
Negligencia o mal quem não o percebeu surgir sorrateiro quando permitiu que alguém chorasse por sua causa.
Negligencia o passado quem não o busca e retoma, com suas alegrias e dores, a fim de permitir que os pedaços esquecidos façam parte de um presente melhor.
Negligencia o presente quem diz não a uma nova emoção, a uma nova forma de se enxergar e de se reinventar.
Negligencia o futuro quem, no presente, fica esperando que ele chegue mas não faz nada pra que seja o melhor possível.
Enfim, negligencia a si mesmo quem não vê no espelho alguém digno de ser amado e respeitado, quem não vê a beleza exposta em cada parte do corpo, em cada marca que o tempo e as emoções deixam na face. Negligencia a si mesmo quem espera encontrar-se no outro, quando tudo o que precisa já está lá dentro da alma, inscrito por sua história, a história de quem se é ou de quem se permitiu ser.
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criado por madlau
16:51:54